segunda-feira, 22 de junho de 2009

Messieur Marcoi

- Posso ajudar, senhor?

- Por favor. Traga-me um chá e um bom livro.


Eram cinco da tarde, Avenida Paulista, dezessete graus, sexta feira, sete horas da noite. Penumbra. Ele era Jean Jaques Marcoi, francês, naturalizado brasileiro, filho de pais franceses, criado por família adotiva, trinta e sete anos, alto, magro, cabelos curtos castanhos, nariz alongado, óculos no bolso da camisa, paletó com calça xadrez. Na bolsa, um saco de papel, uma maçã e Les Misérables, um bloco de anotações na mão esquerda apoiada sobre o joelho esquerdo, dobrado sobre a perna direita, formando um quatro. Na mão direita, uma Parker 45.


- Messier Marcoi! Comment allez-vous?

- Ça va, madamme.

- Perdoe-me. Estava de costas quando o senhor entrou, não notei quem veio atendê-lo, teria vindo eu mesma! Atenderam-no bem?

- Como em qualquer lugar atenderiam, espero o chá.


Messier Marcoi tinha cabelos brancos, muito dinheiro e uma carreira brilhante em crítica literária. Criticara todos os grandes escritores do mundo desde que se formara em Belle Lettres, na França. Não dizia ser formado em Letras, mas em Belas Letras, em Literatura. Marcoi era temido pelos escritores renomados, rechaçado pelos professores universitários e absolutamente respeitado pelos escritores iniciantes.

De Homero a Cervantes, passando com tranqüilidade por Shakespeare e Camões, em todos os livros o homem achou defeitos, falhas, erros, pontos possíveis de se melhorar e detalhes que escaparam a todos os críticos anteriores. Um só artista escapou à pena de aço do mestre da crítica: Victor Hugo. Não porque ele não tenha encontrado defeitos na obra dos escritor d’O Corcunda de Notre Damme, mas porque nunca os procurara.

Nas palavras de Jean Jaques Marcoi: “Victor Hugo é meu mestre, meu pai e meu deus. E a deuses não se tece críticas”.

Marcoi fora criado na França, com centenas de livros à sua disposição, pai poeta e mãe atriz. Sua audácia como crítico literário começou cedo. Na escola, uma das poucas assim em Paris, aprendera Inglês desde muito pequeno. A partir da alfabetização, teve educação bilíngüe.

Aos doze anos ganhou do pai um exemplar em capa dura dos Complete Sonnets de William Shakespeare. Lia-o, embora vagarosamente e por vezes com auxílio de dicionário. Na primeira leitura achou o autor genial, além de tudo o que já tinha lido, e penalizou-se por ter nascido na França, daí com a impossibilidade de algum dia ter um inglês perfeitamente Shakespeariano. Numa segunda leitura começou a notar a obviedade do que era dito pelo Bardo, mas ainda reconhecia a genialidade da forma. Quando releu a obra pela quinta vez, levou um dos sonetos para um professor de inglês da escola e disse, hesitante:


- Acredito que teria sido uma melhor escolha um verbo que terminasse alto, em vez de baixo.


A fala lhe rendeu mais duas leituras da obra e um trabalho que permanece até hoje nos arquivos da universidade pela originalidade ausente de consulta bibliográfica do garoto de treze anos que o escreveu. Rendeu-lhe também a eterna careta do professor: o trabalho deveria ser intitulado “A genialidade do Bardo Inglês”, e assim o foi, sendo que a partir da introdução, o pequeno Marcoi apontou falhas incontestáveis nos sonetos do maior escritor de todos os séculos e lugares, concluindo: “se ainda existem gênios, ainda não existem bons leitores”.

Antes d’Os Sonetos, o garoto ganhara poemas de Baudelaire, os quais leu em uma tarde e descartou, como sendo bons para uma leitura a toa, mas um pouco monótonos pela repetição de temas, sentimentos e imagens.


- Seu chá, messier.

- Obrigado, querida, mas e meu livro?


A moça julgou que Marcoi brincava: “um homem não pode vir a um café e pedir um chá e um livro”. Deu um sorriso e ia se retirando quando foi interrompida:


- Madamme, traga-me o bom livro, sim?

- Sim, senhor, messier, em um instante.


Virou-se novamente e rumou para o bar, onde sussurrou à gerente que vira conversando com o homem em xadrez::


- Chamei-o de messier, como a senhora pediu. Mas agora ele insiste que leve para ele um bom livro. Não somos uma biblioteca, somos?

- Para ele, somos, querida. Vá até o armário ali no canto, abra-o e escolha o livro que achar adequado para um leitor sério e inteligente. Tome aqui a chave.


[continua e sofrerá correções]