sábado, 4 de abril de 2009

Abat jour

Era uma velha. Não podia mais ser chamada de senhora já há alguns anos, nem de idosa, que seria lípido demais, seria leve demais. Ela era velha.
Sentava na sua poltrona grande e também velha e comia bombons de chocolate velhos. Daqueles que estão brancos em cima, porque com o tempo a gordura subiu e se concentrou.
Tinha um papagaio no apartamento, que já não tinha lá muitas penas ou muita voz. Perdeu também sua muita fome e acabou por só ter muita idade. Como a dona.
As olheiras, não do pássaro, da mulher, eram marrons, escuras, profundas, de quem dorme muito e não descansa nada, porque algo dói, a boca tem gosto ruim, a cama faz seus barulhos e a bexiga suas exigências vezes demais por noite.
Livros havia, em várias estantes, meticulosamente organizados, da época em que ela ainda nutria interesse pela literatura. Depois passou, os olhos já cansavam tão rápido que não compensava começar os romances. Se tornou adepta das novelas: literatura realista animada, como ela chamava em sua altivez decrépita.
Uma luminária, abat jour, iluminava em amarelo suas tardes e noites, que não se resumiam a muito mais que bombons e televisão. Ela jé era gorda e não tinha lá muita disposição para arrumar a casa nem muitas forças para se levantar com frequência. Ia da poltrona para a cama, mas nem todos os dias limpava os dentes ou o corpo. Não lavava as mãos porque não recebia visitas e as comidas que pedia por telefone eram deixadas, já há anos, à sua porta.
Era solitária. Desde sempre o fora. E não queria mudar, estava bem, ou acostumada, assim. E foi ficando no mundo, despercebida pelo silêncio.
Até que o silêncio foi maior e nenhum barulho se fez, de chave ou pá. O apartamento, herméticamente fechado, não deu origem a novas formas animais. Só as contas ficaram atrasadas por anos. E tudo continuou no mesmo velho silêncio.
 

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